História da Arte

Abstracionismo & Neoplasticismo

A arte abstrata ou abstracionismo é geralmente entendido como uma forma de arte (especialmente nas artes visuais) que não representa objetos próprios da nossa realidade concreta exterior. A expressão também pode ser usada para se referir especificamente à arte produzida no início do século XX por determinados movimentos e escolas que genericamente encaixam-se na arte moderna. Surge a partir das experiências das vanguardas europeias, que recusam a herança renascentista das academias de arte, em outras palavras, a estética greco-romana.

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O Que É?: A arte abstrata usa as técnicas artísticas conhecidas (relações entre cores e estilos) para compor uma obra visual (seja ela escultura ou pintura) de uma maneira “não representacional”, ou seja, de uma maneira que não represente formas concretas de nosso mundo.

04 - Suíte Santa Fe. Bill Barret, 2010.
Suíte Santa Fe. Bill Barret, 2010.

Pré-surgimento: Ainda no início do século XX algumas vertentes do cubismo e do futurismo eram caracterizadas como “abstratas”. Ainda sim elas eram representativas porque buscavam representar algo de nosso mundo e também figurativas porque se utilizavam de formas e figuras reconhecíveis. Ainda não eram artes completamente abstratas.

 Sentir o Visual

Movimento Independente: A arte abstrata será vista como um movimento independente a partir da Primeira Aquarela Abstrata, de Wassily Kandinsky em 1910. Seu objetivo era utilizar formas abstratas como meio de criar uma experiência transcendental no espectador, através somente dos elementos puros da arte visual ao invés das formas concretas.

União Musical: A música é uma arte abstrata por excelência. Uma vez que só podemos ouvir uma música e não podemos tocá-la, a música é uma arte sentida por nós que a ouvimos. Era essa intenção que Kandinsky queria transmitir em suas obras, tanto que seus quadros são os primeiros com títulos que são conceitos de teoria musical: composição, ritmo, etc.

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Abstracionismo Lírico: Dessa forma, Kandinsky inaugura e representa esse segundo tipo de arte abstrata que se inspirava totalmente nos sentidos do espectador, sendo assim individual, para construir uma arte visual que começa no quadro, mas se forma na imaginação do espectador que é quem dá sentido à obra.

Abstracionismo geométrico: O abstracionismo geométrico, ao contrário do abstracionismo lírico, foca na racionalização, ou seja, faz com que o processo de fazer a obra de arte dependa de uma análise intelectual e científica. Foi influenciado pelo cubismo e pelo futurismo. No abstracionismo geométrico, as formas e as cores devem ser organizadas de maneira que a composição resultante seja apenas a expressão de uma composição geométrica. Esta ramificação abrirá espaço para o Neoplasticismo.

Wassily Kandinsky é considerado por muitos estudiosos como um dos principais pintores do século XX, não apenas por sua produção artística extremamente relevante, mas também por sua pesquisa teórica sobre a linguagem visual e impacto da arte na sociedade.

Trabalho e Obra: Kandinsky se baseava nas cores e formas para criar suas cenas, suprimindo os detalhes para retratar a ideia do objeto retratado: o mais importante era a essência do objeto. Procurava pintar temas imaginados, o que lhe proporcionava uma grande liberdade no uso da cor e sua utilização como elemento expressivo.

Arte e Educação: O artista sempre atuou em suas duas paixões: a arte e a educação. Escreveu inúmeros livros sobre as suas pesquisas a respeito da arte e atuou na implementação do ensino de Educação Artística na Rússia. Na Alemanha, Kandinsky ajudou a montar e lecionou na escola Bauhaus.

A Bauhaus

A escola Bauhaus (“construir a casa” em tradução livre) foi fundada por Walter Gropius, um dos principais arquitetos do início do século XX. A Bauhaus tinha o intuito de estabelecer novos parâmetros estéticos para os objetos modernos.

Nova Função, Novo Público: Para o fundador da Bauhaus, era necessário um novo entendimento dos objetos, aprimorando e teorizando sobre o seu desenvolvimento, sua finalidade, sua funcionalidade e principalmente seu preço, que deveria ser baixo, para que fosse acessível às massas.

Objetivo: Gropius descreveu no manifesto da Bauhaus o seu desejo mais utópico em relação à instituição, que era “criar uma nova guilda de artesãos sem distinções de classe que erguem uma barreira arrogante entre o artesão e o artista”. Cabia a essa nova comunidade de artistas/artesãos criar objetos simples, de fácil produção e bem acabados que atendessem as necessidades do mundo moderno.

Arte Funcional: A teorização dos objetos e a busca pelo simples guiaram toda a estética da Bauhaus. Nela, a forma do objeto deveria seguir a sua função, ou seja, o objeto deveria ser desenvolvido a partir dessa função, nada que não se relacionasse à funcionalidade deveria ser descartado.

Novo Ensino: Assim como os seus objetivos, a Bauhaus também contava com um sistema de ensino revolucionário. Com as reformas, a formação dos alunos começou a
ganhar uma ênfase maior na produção industrial dos objetos, porém sempre foi de interesse da escola, e objeto de estudo dela, o equilíbrio entre o artesanal e o industrial.

Reação Contrarrevolucionária: Em 1925, começam os problemas para a jovem escola: o governo regional recém-eleito vê no seu caráter revolucionário uma ameaça à ordem publica, e, em meio a vários cortes de verba, o governo pede o fechamento da Bauhaus.

Bauhaus Resiste: Contra esses duros golpes, é fundado o “Círculo de Amigos da Bauhaus”, com o objetivo de arrecadar fundos e apoio popular para manter a
escola de pé. Com o apoio do círculo, em 1926, a escola se muda para Dessau.

Transformação em Universidade: Com a mudança a instituição recebeu o titulo de “Escola de Design” e passou a emitir diplomas equivalentes aos das universidades. Na nova sede, o foco de trabalho e pesquisas também foi ampliado, abrangendo moradias, utensílios domésticos e móveis.

Nazismo e Proibição: A escola foi ofcialmente fechada em 1932 pelo governo alemão. Em 1933, depois de uma tentativa frustrada de reabertura em Berlim, a Bauhaus foi obrigada a encerrar suas atividades pelo governo nazista, sendo taxada como subversiva.

Neoplasticismo

A Superação da Arte: Os artistas do movimento Neoplásticos, encabeçados por Piet Mondrian, acreditavam que a materialização concreta dos valores neoplásticos iria, de fato, se sobrepor a arte. Então, não existiria mais a necessidade de quadros, pois todos nós viveríamos no meio da arte materializada e realizada ao nosso redor.

Composição em Vermelho, Amarelo, Azul e Preto. Piet Mondrian, 1921.
Composição em Vermelho, Amarelo, Azul e Preto. Piet Mondrian, 1921.

Fundamentos: O neoplasticismo defendia uma total limpeza espacial na tela para que houvesse a pintura. Dessa forma, os artistas reduziram a pintura aos seus elementos mais puros ressaltando todos os seus elementos primários – a linha, a cor e as formas geométricas.

Influências: Além do cubismo e do futurismo, bem como a própria arte abstrata da qual o Neoplasticismo é filha, muitos veem uma revolta moral contra a violência das grandes guerras na Europa no início do século XX. Por fim, a importante influência da teosofia.

Teosofia: O movimento teosófico alegava ter resolvido o conflito entre religiosidade e ciência ao aplicar o conceito biológico de evolução das espécies a uma escala universal (todo o universo estaria evoluindo rumo à perfeição, não só as espécies). Como resultado, o Neoplasticismo era visto por seus integrantes como mais do que um estilo artístico, possuindo um caráter quase messiânico, sendo uma forma de filosofia e religião para alcançar uma “beleza universal”.

Arquitetura: Essa transformação das artes plásticas em artes cada vez mais espaciais acabou afetando a arquitetura. É nítida a grande participação e influência de arquitetos no De Stijl, com muitos deles visando a produção de um ambiente que fosse em si mesmo uma expressão artística. Isto nos revela uma preocupação com as estruturas ao invés da beleza dos ornamentos, característica já presente na pintura. Um bom exemplo disto é o projeto Casa Schröder executado pelo artista Theo van Doesburg

De Stijl

Um dos mais idealistas movimentos artísticos do século XX, De Stijl (O Estilo) foi um dos grandes marcos da arte moderna, o “mais puro dos movimentos abstratos”. O movimento, de origem e essência neerlandesa, permaneceu ativo e coeso por menos de quinze anos, mas sua influência pode ser sentida até hoje, particularmente nos campos da pintura e arquitetura. Entre seus colaboradores estavam, além de Doesburg, o pintor Piet Mondrian, o designer de produto Gerrit Rietvield, entre outros.

O Que É?: Originalmente, De Stijl foi uma revista teórica, uma publicação iniciada em 1917 por Theo van Doesburg e alguns colegas que viriam a compor o movimento artístico conhecido por Neoplasticismo. A influência das publicações da revista entre 1917-1928 foi tamanha que o próprio movimento neoplasticista é comumente chamado de De Stijl.

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Exemplo da revista De Stijl, Letterklankbeelden.

Objetivo: Abraçando o abstracionismo na pintura de forma total o Stijl caracterizou-se pelo fervor quase religioso de seus partidários, que acreditavam existir leis que regem a expressão artística e que viam em sua arte um modelo para relações de uma possível harmonia entre indivíduos e sociedade.

Renovação: Ao injetar sólido embasamento teórico em suas obras – pinturas, construções, esculturas, entre outros – os Neoplasticistas radicalizaram e renovaram a arte moderna. Os ecos do modo neoplástico de encarar a arte são sentidos até os dias de hoje em inúmeras áreas.

Legado na Pintura: No campo da pintura, Mondrian permanece como um dos grandes pintores do século XX, influenciando múltiplas gerações e correntes abstratas contemporâneas. Suas composições únicas, imediatamente reconhecíveis, entraram, em certa medida, no imaginário popular e foram apropriadas pela indústria cultural (um fenômeno interessante é a profusão de livros, não necessariamente relacionados à arte, cujas capas imitam as famosas composições de Mondrian).

Legado na Arquitetura: Com o intercâmbio entre o movimento e a Bauhaus, o ideal neoplástico tornou-se imensamente popular, com produção e consumo em escala industrial de infindáveis peças diretamente inspiradas pelas propostas do grupo holandês, que adquiriram um caráter ‘moderno’, voltado para o futuro. Até hoje, obras como a Poltrona de Rietveld são imediatamente associadas a uma atitude voltada para o futuro, sendo comum ver até mesmo em filmes de ficção científica cenários recheados de elementos neoplásticos como forma de realçar o aspecto ‘futurista’ do ambiente.

Poltrona de Rietveld.

 

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