História Geral

As Revoluções Inglesas

No começo do século XVII, a Inglaterra era uma potência de segunda categoria no teatro da política europeia. Curiosamente, o reinado de Elizabeth I (1553-1603) foi muitas vezes visto como uma Idade de Ouro da Inglaterra, pela estabilidade política, pelo crescimento econômico e o desenvolvimento da cultura popular.

A Inglaterra Elisabetana (1553-1603)

Conciliadora: A rainha consolidou a Igreja Anglicana, sem se esquecer da tarefa de manter boas relações com a crescente burguesia puritana, cada vez mais influente no Parlamento.

Expansão Ultramarina: Exploradores como Francis Drake e Walter Raleigh procuraram expandir a presença inglesa em áreas ultramar, notadamente na América do Norte, mas encontraram resistência ibérica. A principal adversária era a Espanha.

Conflito Espanhol: Ameaçada pelo rei Filipe II da Espanha – que, sob patrocínio do papa, queria liquidar a monarquia protestante inglesa –, Elizabeth I foi à guerra e, em 1588, derrotou a até então invencível armada espanhola, tornando a marinha inglesa a melhor do mundo.

Contraste e Desigualdade Social: Contudo, apesar de a Inglaterra elisabetana muitas vezes evocar imagens da corte suntuosa com seus trajes esplêndidos, o contraste com a realidade inglesa era sensível. Durante o século XVI, a população inglesa aumentou dramaticamente, e isso, somado a outras pressões econômicas, fez com que um número crescente de pessoas não conseguisse mais se manter. O cercamento de terras comunais impôs a muitas famílias a necessidade de buscar (e nem sempre conseguir) sustento nas cidades, aumentando consideravelmente o número de vadios urbanos.

– Os Diggers e Levellers: A efervescência social produziu novas bandeiras políticas, divulgadas em panfletos e manifestações. Os diggers (ou cavadores) tinham o projeto de utilizar a distribuição da terra para recuperar a liberdade e superar o que chamavam de escravidão da propriedade. Os levellers (ou niveladores) apregoavam a crença geral de que todos os homens eram iguais. Assim, um governo só poderia ter legitimidade se ele fosse representante dos interesses dos cidadãos.

A Dinastia Stuart: Jaime I (1603 -1625)

A Transferência do Trono: Foi nesse turbulento contexto econômico e social que Elizabeth I morreu em 1603 e, sem deixar herdeiros, teve seu trono transferido para seus primos escoceses, a dinastia dos Stuart.

A Grã-Bretanha: Embora Inglaterra e Escócia permanecessem como Estados separados, a união das Coroas previa que os dois reinos poderiam ser combinados em uma única entidade política com os dois parlamentos fundidos em um só, o parlamento da Grã-Bretanha. Mas isso só aconteceria no início do século XVIII.

Breve Paz: Como sucessor, Jaime I assumiu o trono, bem recebido pela burguesia puritana inglesa por ser presbiteriano (ambas religiões ramificadas do Calvinismo) e governou em paz até sua morte em 1625, momento no qual é substituído por seu filho, Carlos I.

– V de Vingança: A máscara foi uma criação do desenhista David Lloyd, coautor de uma famosa história em quadrinhos lançada em 1982, “V de Vingança”. A máscara representa o inglês Guy Fawkes, condenado à morte por traição em 1605 por ter planejado explodir o Parlamento Britânico durante o discurso do rei Jaime Stuart – seu alvo principal. Aliás, o 5 de novembro, dia de sua captura, é celebrado até hoje na Inglaterra. Desde 2005, quando o movimento hacker Anonymous adotou a máscara, Guy Fawkes se tornou uma espécie de ícone da luta contra o autoritarismo estatal e as grandes corporações.

A Dinastia Stuart: Carlos I (1603 -1625)

– Parlamento Intermitente: Na Inglaterra do século XVII, o Parlamento (Câmara dos Comuns + Câmara dos Lordes) era temporário, ou seja, era reunido e dissolvido por ordens do rei até nova reunião ser convocada. Durante o reinado de Carlos I o Parlamento foi evocado por um período de três semanas, conhecido como Short Parliament, porém dissolvido com austeridade real. Dez anos depois foi convocado novamente para auxiliar na questão escocesa e permaneceu ativo durante vinte anos, período conhecido como Long Parliament.

Aliança Francesa: A aliança com os puritanos, orquestrada por seu pai, foi abandonada por Carlos. O novo monarca se casou com Henrieta Maria, nobre francesa, consolidando uma aliança com a França católica de Luís XIII. A Inglaterra daria uma guinada conservadora à religiosidade anglicana.

Impopularidade e Tirania: A animosidade entre o monarca e a Câmara dos Comuns criou dificuldades para a aprovação de uma série de impostos. Carlos I foi indiferente a isso e continuou a arrecadação à revelia do parlamento. Isso resultou na Petição de Direitos (1628-29), que lembrava ao rei os princípios da Magna Carta, a qual limitava seus poderes. As tensões levaram à dissolução do parlamento e a onze anos de governo pessoal do monarca – o período da tirania.

– A Colonização à Bordo do Mayflower: Em 1620, um grupo de puritanos ingleses partiu para a América para escapar da perseguição religiosa, em meio ao clima religioso e político volátil da monarquia de Jaime I. O grupo se propôs a criar uma nova colônia na América do Norte e fretou o Mayflwer, um navio de carga, para a viagem. Os peregrinos do Mayflwer foram responsáveis pelo início da colonização de povoamento de Massachusetts.

A Questão Escocesa: Insatisfeitos com a insistência de Carlos I em colocar bispos anglicanos em postos administrativos do país, os escoceses assinaram o National Convenant (Pacto Nacional) e formaram um exército. Eles queriam então a autonomia em relação à Inglaterra. Diante da situação extrema, Carlos convocou o Parlamento. Mas a situação entre os deputados e a monarquia estava tão desgastada que nenhuma estratégia para deter os escoceses avançou.  Aproveitando o caos político, os escoceses invadiram o território inglês e ocuparam Newcastle. O rei sem saber o que fazer, e pressionado, aceitou a humilhação de convocar novamente os deputados.

Rei Submisso: Precisando do apoio parlamentar para sufocar a agressão escocesa, Carlos foi obrigado a concordar com várias exigências do Parlamento: fiava proibida a dissolução da Casa sem o consentimento dos deputados; o ship money foi considerado ilegal; várias vítimas políticas do período da tirania foram indenizadas.

A Revolução Puritana (1641-1649)

A Questão Irlandesa: A atmosfera revolucionária, simbolizada pela emancipação do parlamento e aparente submissão de um rei até então considerado autoritário, estimulou a reação de um outro país subordinado à Inglaterra. Em 1641, irrompeu uma revolta na Irlanda: milhares de ingleses lá residentes foram assassinados.

Resposta Inglesa: O rei exigiu uma intervenção militar. O parlamentou aceita, mas impôs que o comando das forças militares fosse confiado a alguém escolhido pela própria Casa, e não pelo monarca. Percebendo o esvaziamento pleno de sua autoridade, Carlos tentou uma última cartada: invadiu o parlamento visando prender os líderes da oposição.

A Loucura do Rei: O rei exigiu uma intervenção militar. O parlamentou aceita, mas impôs que o comando das forças militares fosse confiado a alguém escolhido pela própria Casa, e não pelo monarca. Percebendo o esvaziamento pleno de sua autoridade, Carlos tentou uma última cartada: invadiu o parlamento visando prender os líderes da oposição.

Guerra Civil: A ação provocou enorme manifestação nas ruas da capital. Londres não estava mais com o rei. Carlos fugiu para o norte da Inglaterra, onde organizou – com vários lordes e generais – as tropas fiéis a ele. O parlamento decidiu pela organização de um exército próprio: o New Model Army (Novo Modelo de Exército). De Westminster, a luta contra o autoritarismo do rei ganhou outras áreas da Inglaterra. Irrompeu a guerra civil: a Revolução Puritana.  Em 1649, o rei foi preso. Intransigente, foi levado a julgamento no parlamento, e sentenciado à execução. Era o fim de Carlos I.

– Burguesia vs. Monarquia: Tratava-se de um verdadeiro impasse político que colocava às claras a dificuldade de adequação entre uma classe que consolidava sua hegemonia político econômica e um governo que não abria mão de instaurar um sistema político avesso às pretensões dessa classe.

Heterogeneidade Política: É importante notar que o Novo Modelo de Exército – liderado por sir Thomas Fairfax e Oliver Cromwell – seria caracterizado por fileiras onde se aglutinavam desde propostas de reforma agrária, passando por defensores da igualdade perante a lei, até burgueses proprietários de terra. Tal heterogeneidade se explicou porque todos esses grupos percebiam a importância de se unir contra um inimigo comum, o autoritarismo de Carlos I. Mas é claro que essa mesma heterogeneidade – salutar na batalha – se mostraria um problema diante da determinação de qual caminho a seguir após a derrota do monarca.

República Puritana

Instituições Monárquicas: A monarquia e a Câmara dos Lordes foram extintas. Os Comuns foram expurgados dos elementos mais conservadores, avessos às demandas dos generais do Exército – Cromwell à frente –, que se tornaram efetivamente a força política decisiva.

Agravamento da Questão Irlandesa: As realizações imediatas do novo governo foram relevantes. A revolta irlandesa foi sufocada definitivamente por Cromwell. Cerca de dois terços das terras da Irlanda foram confiscadas e entregues a mercadores londrinos que haviam realizado empréstimos para o parlamento durante a guerra civil. A situação social irlandesa era gravíssima.

O Tirano Protetor: Em 1650, a Escócia foi invadida e pacificada. Em 1653, um parlamento completamente modificado (rump parliament) aprovou a entrega a Cromwell do título de Lorde Protetor da Inglaterra. Iniciava-se a república ditatorial.

– Atos de Navegação (1651): Determinavam que todo o produto comercializado pelos ingleses só poderia ser transportado por navios ingleses ou por navios do país de origem dos produtos – o objetivo era tirar à força o comércio de transportes dominado pelos holandeses.

Expansionismo: O resultado seria a guerra anglo-holandesa (1652-54), vencida por Cromwell, que auxiliou decisivamente a construção da hegemonia econômica inglesa na Europa, dada a importância do comércio marítimo à época. A conquista da Jamaica também foi realização do protetorado.

Morte e Sucessão: Em 1658, Cromwell morreu e, pelas regras do protetorado, o poder passou para seu filho, Ricardo, que não tinha o mesmo prestígio do pai diante do Exército e do parlamento.

Restauração Stuart: Ricardo não conseguiu evitar articulações entre militares e monarquistas com vistas ao retorno de Carlos II – filho do rei executado em 1649 –, que estava exilado na França. Em abril de 1660, o novo Carlos prometeu indenização, pagamento de atrasados ao Exército e a liberdade de expressão – tudo sujeito ao aval parlamentar. Em maio, ratificou-se a Restauração Stuart.

A Dinastia Stuart: Carlos II, Jaime II (1660~1685)

Reaproximação Católica: Carlos II (1660-1685) restabeleceu a Câmara dos Lordes e dissolveu o New Model Army. O Longo Parlamento foi fialmente extinto. O rei aproximou-se de nações católicas como a França e Portugal.

A Sucessão Cristã: Seu irmão e sucessor, Jaime II (1685-89), assumiu o trono de forma pacífica. Havia claramente o projeto de restabelecimento do catolicismo no país.

O Problema do Cristianismo: A ameaça católica ultrapassava os limites de uma contaminação doutrinária. Para a elite política inglesa – tanto na Câmara dos Comuns (essencialmente puritana) quanto na dos Lordes (anglicana) –, um possível restabelecimento do catolicismo era considerado uma afronta à autonomia da nação, não só pela inevitável ingerência do papa, mas principalmente porque, naquele contexto, a França era o grande bastião do catolicismo na Europa.

Linha de Sucessão: A esperança dos puritanos era depositada na sucessão de Jaime II. Sua filha, Maria, era protestante e casada com um nobre holandês, Guilherme de Orange. Os novos monarcas eram vistos como o antídoto para a ameaça que insistia em pairar sobre o país.

A Gota d’Água: Jaime era viúvo. Casou-se novamente com uma papista italiana, Maria de Módena, e, em junho de 1688, a nova rainha lhe deu um filho, Jaime Edward. Foi a gota d’água.

Revolução Gloriosa (1688~1689)

Golpe e Fuga: A ameaça católica uniu os principais partidos do parlamento inglês (o burguês Whig e o aristocrático Tory) em torno de uma solução golpista: apoiar a ascensão do príncipe holandês Guilherme de Orange, genro do monarca, ao trono. Assim, Guilherme foi convidado por personalidades ilustres do parlamento a invadir Londres.

Abdicação e Sucessão: Diante da iminente guerra civil, Jaime II fugiu para a França. Em 6 de fevereiro de 1689, o parlamento decidiu que James II tinha abdicado por sua vontade e que a Coroa devia ser oferecida em conjunto a Guilherme e sua esposa Mary, a sucessora real de Jaime II.

Declaração dos Direitos: A Bill of Rights assinada por Guilherme III  ratificava a obrigação do rei de submeter impostos à aprovação das Câmaras. Da mesma forma, seriam garantidas a liberdade de imprensa, a propriedade e a liberdade individual. A liberdade de culto estava assegurada, menos para o catolicismo (Atos de Tolerância). Era o início da Monarquia Constitucional Parlamentarista.  A Câmara dos Comuns se tornou a principal instituição política da Inglaterra, e seus integrantes burgueses, o grupamento mais influente.

Legado: Embora não fosse uma declaração revolucionária de liberdades universais, preocupando-se mais com os crimes específicos de James II, a Declaração de Direitos se destacou como um dos documentos angulares no desenvolvimento das liberdades civis na Inglaterra – e um modelo para, mais tarde, declarações de direitos de caráter mais geral, tais como a Declaração de Direitos da Constituição dos EUA.


CONTEÚDO COMPLEMENTAR

  1. A verdadeira história do Coração Valente – William Wallace templário.
  2. Os Erros Históricos de Coração Valente.
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